quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Bellum sine bello

Li algures que temos de acreditar mesmo
nos nossos sonhos
e que isto significa acreditar que eles 
nem são já sonhos sequer
acreditar que não existem como sonhos.

Temos de estar na plenitude da vivência das nossas fantasias
E eu e tu estamos no carro e tu tens a manga da camisa dobrada
e eu... Eu sou o teu pulso e sinto o frio do aço do teu relógio 
Em todas as curvas, minhas, da estrada e do teu pulso
em toda a firmeza de te sentir finalmente eu 
e não só meu de certa forma.

Sinto domínio sobre o tempo e desconfio que tu também.

Temos domínio sobre os segundos em que eu e tu nos separamos 
no teu pulso nos meus dedos
na cor das minhas unhas
na carne dos meus lábios 
e na criancice assustadora dos meus dentes
que provocam sentimentos
paradoxais.

De repente
aparece no escuro o metal do travão de mão 
e tu tocas-lhe mais do que uma vez depois de agarrares 
na minha mão para o puxares para cima.
Eu toco só no teu dedo que se vira com a tua mão 
para tocar na minha cara.
Depois sinto a ponta do teu dedo frio
e ponho-o na boca até ter mais vontade de te beijar
do que de ter o teu dedo na boca.

Desconfio que posso beijar-te e 
ter o teu dedo na boca ao mesmo tempo.

Sinto domínio sobre o tempo.

Temos domínio sobre os segundos em que eu e tu nos separamos 
Porque sonhamos e vivemos exatamente ao mesmo tempo.

Como eu tenho ao mesmo tempo 
o teu beijo e o teu dedo na minha boca.

O resto também sinto.

É inevitável.

Como é inevitável outras fantasias interromperem esta. 

Há outra em que estás sentado e eu estou de pé
de costas e com o cabelo todo para trás.
Precisamente quando tu achas que consegues ver 
todas as minhas cores
eu mostro-te que não são só aquelas,
há azul; reparas que sou também da cor do sangue
à medida que desces os olhos e vês que não estou
totalmente despida e que o que vale
é que me vou virar.

Quando eu me viro tu vês mais cores e há mais vermelho.

Depois é como se quisesses salvar-me do abismo
Deixas as mãos viverem 
agora que os olhos já viram 
e eu sento-me com o ventre colado a ti
e tu desconfias que eu tenho vinho na boca. 

Beijas-me com a delicadeza que eu desejava
e bebes o vinho. 

Dizes, consequentemente, a verdade:
Ainda bem que aqui estamos os dois.

O mundo rende-se
Porque a realidade venceu o sonho
E ninguém se magoou.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Questão d'abrira boca

Falava-lhe
de coisas
resolvidas
e era tudo desejo de tratar o insolúvel
- A esperança está sempre aqui.

Aqui é mansamente todo o lado. Pensar
assim; devagar e com sentido
como quem alfabetiza o sentimento
dava-lhe a coragem necessária
para abrigar toda a força nas cordas vocais
e
explicar-se.

- O que foi que conseguiste?

E ela respondia
como se, de repente,
dar a resposta
que buscava
fosse uma questão de abrir
a boca.



sábado, 15 de abril de 2017

Andam na pesca das lulas

os homens andam
de noite
            na pesca das lulas
e eu vejo as luzes

o mar de noite                   parece-se ainda mais com o céu

sem estrelas
a gente
                            perde o horizonte

mas os homens andam
de noite
            na pesca das lulas

e a minha dor não veem

a minha dor tem o problema das sereias

e os homens lá andam
de noite
              na pesca das lulas

e eu vejo as luzes
só as luzes e as estrelas

como eles
como os homens
                       

eu não vejo as sereias.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Em caras

Afasto os dedos
Vejo menos e maior
É aqui e não mais perto
E os meus olhos sabem
Finalmente
Que mando neles com as mãos. 



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Nas palmas das tuas mãos
Moram ritmos suaves de respiração
Que não dás conta de me oferecer.

Eu, em troca, respiro nas tuas mãos
Para dormir contigo
E quero dormir contigo para sempre.

Porque no teu toque vive uma clareza de manhã
Que tira as sombras da noite
Mas que deixa a noite ser escura
Para fecharmos os dois os olhos

Se eu te pudesse explicar por palavras
Talvez dissesse que és a minha casa
Talvez dissesse até que és o meu dia
Porque adormecer
É o que é preciso para acordar

Eu, em troca, respiro nas tuas mãos
Para acordar contigo
E quero acordar contigo para sempre.




sexta-feira, 22 de abril de 2016

Maio

Naquela rua as linhas eram finas e as cores alaranjadas davam aos passos um ar infantil. O passeio existia meio torto e com alguns pontos mais altos que outros. Habitava ali um tempo dourado que fazia pensar no verão e na imponência fria do capricho de uma rapariga loira vestida de cor de rosa. Querer jogar nas ruas ao sabor do giz frio que ficava em cima da secretária a noite toda. Fazer cruzes e círculos com gente no meio prisioneira deles ou deles afastada sem meio termo. Os insetos que ali havia eram só carochas que muito pretas ameaçavam estar prestes a explodir. As coisas vincavam-se como as personalidades e o ar sentia-se em todas as suas dimensões bege.

A rapariga
tinha coisas 
para acontecer
e confiava que elas acontecessem 
paralelas a ela. 

Um dia 
seria o dia 
em que as constantes 
se organizavam. 

A maneira hábil 
como caía em si 
sempre 
a tinha transformado 
num oráculo benfeitor. 

Muito 
não haveria 
de faltar 
para chegar 

o dia 
do seu domingo.