quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Em caras

Afasto os dedos
Vejo menos e maior
É aqui e não mais perto
E os meus olhos sabem
Finalmente
Que mando neles com as mãos. 



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Nas palmas das tuas mãos
Moram ritmos suaves de respiração
Que não dás conta de me oferecer.

Eu, em troca, respiro nas tuas mãos
Para dormir contigo
E quero dormir contigo para sempre.

Porque no teu toque vive uma clareza de manhã
Que tira as sombras da noite
Mas que deixa a noite ser escura
Para fecharmos os dois os olhos

Se eu te pudesse explicar por palavras
Talvez dissesse que és a minha casa
Talvez dissesse até que és o meu dia
Porque adormecer
É o que é preciso para acordar

Eu, em troca, respiro nas tuas mãos
Para acordar contigo
E quero acordar contigo para sempre.




sexta-feira, 22 de abril de 2016

Maio

Naquela rua as linhas eram finas e as cores alaranjadas davam aos passos um ar infantil. O passeio existia meio torto e com alguns pontos mais altos que outros. Habitava ali um tempo dourado que fazia pensar no verão e na imponência fria do capricho de uma rapariga loira vestida de cor de rosa. Querer jogar nas ruas ao sabor do giz frio que ficava em cima da secretária a noite toda. Fazer cruzes e círculos com gente no meio prisioneira deles ou deles afastada sem meio termo. Os insetos que ali havia eram só carochas que muito pretas ameaçavam estar prestes a explodir. As coisas vincavam-se como as personalidades e o ar sentia-se em todas as suas dimensões bege.

A rapariga
tinha coisas 
para acontecer
e confiava que elas acontecessem 
paralelas a ela. 

Um dia 
seria o dia 
em que as constantes 
se organizavam. 

A maneira hábil 
como caía em si 
sempre 
a tinha transformado 
num oráculo benfeitor. 

Muito 
não haveria 
de faltar 
para chegar 

o dia 
do seu domingo. 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Há na velocidade




Há na velocidade uma impressão de eterno que desmarcara impressões de infelicidade. Estabelece-se na ideia antiga de que os caminhos são para se fazer até ao fim. Mas a velocidade tornou-se superior a isso, superior a todos os medos que os caminhos implicam e, alheia às vontades, fê-las convergir numa adjacência a tudo que não toca em nada. Não é por isso que a velocidade há de significar menos. O significado e o toque são coisas absolutamente paralelas e podiam existir perfeitamente cada uma por si. A casa transformou-se com o tempo. Um pouco como mudam as línguas dos países em que não há guerras. O tempo afeta as casas de toda a gente e os edifícios não valem menos que as famílias que neles moraram mais ou menos rápido. Estava pintada e agora parece ter estado pintada. Antes via-se-lhe a cor, agora a cor deixa-se ver quando quer que a vejam. Foi sempre uma casa sem amarras que nunca deixou que nós percebêssemos se a tínhamos feito à nossa imagem ou se ela nos tinha feito a nós com um dentro e com um fora, com quartos para ocasiões diferentes, com cozinhas para comer, discutir e às vezes fumar. Também ninguém sentia a casa como um mistério. A casa era uma realidade e a gente tocava-lhe, sabia-lhe das manhas. Ignorávamos-lhe a indiscutível independência, mas reconhecíamos-lhe o devido afastamento. Isto passa-se assim pelos pactos que as casas em que vivemos nos impõem. Pactos em que negociamos a seu favor convictos de que o sítio onde se dorme é o sítio que nos acorda. Quando eu deixei a minha casa, não fui sozinha. Ajudei um fugitivo. E a vagarosa forma de ser da casa ficou ali a assistir à nossa velocidade. Deixei tudo como estava. E ninguém mais veio a morar lá. A casa sabe, no entanto, que nós também não moramos lá. Tal como sabe que os casamentos duram sempre menos do que os sítios escolhidos para que os meus pais durmam, conspirem e acordem juntos. A beleza estabelece-se nesses quadros. Nas distâncias entre as coisas. Todos nós temos a casa em grande conta, hoje. Alguns de nós até têm medo de ser menores do que a soma daquilo que lá ficou e a independência de que a casa sempre desfruta. Foi por isto que pedi ao meu pai para que voltássemos a casa. O meu pai respondeu-me que a casa ignorava que eu lá morava ainda e que eu talvez não fosse responsável o suficiente para perceber que as casas não são como os homens que se apaixonam por mim. A mim aquele entendimento não me parecia natural de alguém responsável e foi por isso que não percebi nada daquela conversa. A vida anda no transporte mais semelhante às casas que existe e conhece toda a gente, mas multiplica-se em todos os átomos das pessoas, cheia; a única diferença entre a vida e as casas é que as casas ficam com o mortal que há em nós e a vida só se desmancha nos átomos em que multiplica e nunca na fórmula que é dona dela. É porque a vida tem um casamento com ela própria que nada tem de humano. Também não tem nada a ver com casas. Como uma velocidade de caminhos indiferentes para ela, dizem que se autodenomina como  a interceção do conjunto daqueles que sentem a sua rapidez com o conjunto daqueles que, àquela velocidade, não o conseguem fazer. E comunica com todos, oferecendo aos homens a derradeira rapidez dos traços que convergem na personalidade. Essa sim: muito igual às casas.